Artigo

Em tempos de Doutor Bumbum

11 de Agosto de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Larissa Leão, estudante de Medicina

Na última segunda-feira de férias caí de bunda numa pedra na beira da praia. "Me quebrei." Foi assim que chamei a atenção da minha mãe, que estava metros longe de mim, contemplando aquela beleza tropical - enquanto eu já ouvia de um nativo que, quem cai como eu caí, vai da beira do mar pro centro cirúrgico (ou pra beira da morte).

Com muito custo, consegui me levantar e fui com as mãos no cóccix, chorando, até o prédio onde estávamos hospedadas.

Preciso fazer um exame de raios X. Minha mãe achou a ideia plausível. Os amigos pra quem eu contei do tombo, também. Tem que ver como está o cóccix, né?

Ninguém me questionou sobre a utilidade disso. O que quero dizer é: se eu fizesse o exame e nele aparecesse que houve uma fratura, não teria Doutor Bumbum que consertasse - cóccix não se enfaixa, não se imobiliza, não se faz droga nenhuma. Talvez, o cóccix seja o maior símbolo do laissez faire, laissez passer, já que, inteiro ou despedaçado, a gente deixa ele ali e o corpo se encarrega do resto.

Ainda assim, quatro dias após a queda, estava eu pondo meu cóccix pra jogo, expondo-o à radiação. Feito o exame, eu e a médica plantonista analisamos as lâminas: que bom que tu não quebrou, né? - disse, apontando. Que bom, ratifiquei.

Nada mudou. Ainda sinto bastante dor. Restou-me contar com o tempo, famigerado sarador de feridas.

Essa história de bumbum quebrado e raios X me lembrou outra, que remonta meus primeiros atendimentos, em dupla, no ambulatório.

Numa tarde de quarta-feira, uma senhora nos pediu requisição para fazer um raios X da alma dela.

Da alma? Perguntei sem emitir som, apenas franzindo a fronte. Ela seguiu séria, nos olhando. Era da alma mesmo.

Quando fomos passar o caso para o professor, o questionamento foi geral: raios X da alma? Mas por que ela quer isso? Que pedido foi esse?

Coube a nós explicar à paciente que poderia ser perigoso expor a alma dela à radiação: vá que a alma se deteriorasse, como é que se viveria depois? Era melhor deixar a alma em paz, até porque, segundo nossa anamnese e exame físico, ela ia muito bem.

A senhora se convenceu, sentiu-se aliviada. Nós, mais ainda.

Hoje, o que me instiga é por que o pedido da mulher foi tão questionado e o meu, para ver o cóccix, não.

Talvez porque a gente esteja mais preparado para lidar com o resultado de um cóccix pseudoíntegro do que com o de uma alma pseudoíntegra; mesmo que o cóccix não tenha solução e a alma, pra quem tem fé, tenha.

Deve ser por isso que o SUS não cobre esse tipo de operação; particular, por outro lado, suponho que seja uma fortuna - justamente para evitar que alguém descubra que a alma não vai tão bem assim e isso gere um transtorno ainda maior.

A mulher do raios X da alma era uma mulher de coragem.

Eu, honestamente, nem tanto. E foi por essa razão que me contentei em ver como vai o cóccix.

Afinal, ter o bumbum quebrado nunca foi vergonha pra ninguém.


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