Artigo

Schlee no Espírita

19 de Junho de 2017 - 08h27 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Luis Rosa Sousa, Hospital Espírita - prosasousa@gmail.com

Descansem-se corações aflitos, não se trata de descrever uma internação e, sim, uma intervenção literária no programa de cultura do Hospital Espírita, HEP, que tem como curador o escritor Aldyr Garcia Schlee. O convite nos ocorreu a partir do Schlee conjectural que se delineia na abertura de seu romance maior, Don Frutos, onde propõe lermos, juntos, o que ele escreveu: “Nós os dois somos leitores deste livro e compartilhamos uma situação que só mesmo aqui pode ocorrer: não é como se eu estivesse espiando por cima de teu ombro e fosse lendo contigo o que, na verdade, escrevi; é, sim, como se dividíssemos na leitura a ação de escrever o livro - e encontrássemos, juntos, os meios de recompor e reconstituir as imagens prodigiosas que constituíram em vida as ilusões, as certezas, os anseios, os sonhos, as visões, os pesadelos, as lembranças, a imaginação e a morte do Brigadeiro General Don Fructuoso Rivera”, o Don Frutos do dito livro, em sua segunda edição, de 2016, pela Ardotempo.

Pois esse Schlee ultraconjectural aparece desde o ponto de interrogação invertido, à moda espanhola, primeiro signo do livro, e logo as epígrafes com essa mescla de espanhol e português antigos, para seguir com suas expressões na primeira página, onde põe ênfase no desejo de, junto do leitor, recolher lembranças, recompor imagens, garimpar olvidos, finalizando, quinhentas páginas depois, com o sinal de interrogação à brasileira. O seu Don Frutos - uma interrogação invertida, ao abrir, outra interrogação ‘normal’, ao fechar - é a sua (nossa) imensa pergunta sobre o viver e seus labirintos. Com essas credenciais, de julgar privilegiando conjecturas em lugar de certezas, é que fez a gente do HEP formalizar o convite da curadoria ao Schlee, porque nesse seu modo de ser vemos o nosso modo de nos aproximarmos do Outro.

O Programa HEP de Cultura tem atividade semanal há dois anos e visa ao aprimoramento da atenção, tanto aos internos quanto aos cuidadores, sob a inspiração da reforma psiquiátrica de Nise da Silveira, agora sob as vistas do Aldyr Schlee. Cultura cura, uma boa conjectura.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados