Artigo

A fábrica de fazer medo

15 de Junho de 2017 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Gaiger-Professor doutor do Centro de Artes da UFPel; cantor, ator e diretor teatral

Quando criança, as histórias de medo que ouvia no máximo me levavam a dormir junto com meus pais. O bicho-papão, o velho do saco, os mortos-vivos e os diferentes seres imaginários só tinham esse poder: obrigar a gente a dormir de olhos abertos, atentos a qualquer ruído e vulto.

O Cinema e a Literatura são ótimos veículos desse tipo de fantasia. Saudável e inocente. Contudo, quando a experiência do medo salta da fantasia para a realidade vivida, é nossa condição humana que é ameaçada. Assim são as guerras, as ditaduras, os governos medíocres que investem em insegurança e desesperança.

Esse medo intencional, planejado pelo Estado e pelo poder financeiro, obstrui nossa capacidade de pensar, compreender e anula a potência da ação justa.

Maquiavel escreveu algo sobre a importância do temor para a manutenção do despotismo do príncipe.

Muitas religiões recrutam fiéis com essa espécie de ameaça velada: ou acreditas ou a condenação divina. O medo como um sistema, bem presente na violência urbana, é uma estratégia para perpetuar tiranias, de aliciar para seus quadros legiões de imbecilizados e de induzir pessoas às escolhas mais hediondas e contrárias ao bom senso, à justiça e à civilização. É preciso conservar a doença, proteger o vírus e investir na desesperação.

Entre os sintomas dessa sociedade acamada, a simplificação de realidades e as alternativas mágicas e messiânicas: Bolsonaro ou Lula ou Jesus ou o Exército, alguém nos salvará sem que a gente precise sair debaixo das cobertas! Nessas horas, o medo e a ignorância se lambuzam. Confundimos terror e paz. O caso do adolescente tatuado com a frase "eu sou ladrão e vacilão", é assustador pela quantidade de humanos brasileiros que através das redes sociais aprovou a tortura e revoltou-se com a prisão dos torturadores. É o fim do povo cordial? Correrá no sangue da pátria verde e amarela uma espécie de delírio catártico na crueldade? Um tipo de purgação pela injustiça? Um gozo contido pela volta da inquisição e condenação sem julgamento? Seremos todos anônimos do EI? Também são assustadoras as manifestações pela volta dos militares, para que fechem o Congresso e tomem conta de tudo. O desconhecimento sobre os anos da ditadura civil-militar impressiona e é outro sintoma. Se ainda sob ela estivéssemos, não saberíamos nada da corrupção e nem haveria a Lava Jato. Por duas décadas de medo, censura e escuridão, a Odebrecht, a Camargo Corrêa, a Andrade Gutierrez devem à ditadura seu crescimento descomunal feito de favores e negociatas que os militares não nos permitiram saber. Um dos braços direitos do Temer é o general Etchegoyen, que já se manifestou contra as investigações da Comissão da Verdade e parece saudoso da censura e dos tempos em que se calavam os opositores com prisão, morte ou exílio. Alguém sabe se o Exército alguma vez invadiu a Fiesp ou o cartel de bancos para dar fim às decisões econômicas que nos ferram todos os dias? Ao contrário, a ditadura perseguiu gente como Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Oscar Niemeyer, Augusto Boal, Ferreira Gullar, Raul Seixas, Odair José, Rita Lee, Milton Nascimento, Marília Pêra, Glauber Rocha, Herzog, Miriam Leitão, Chico, Caetano, Gil e muitos outros. É isso que os seguidores do EI brasuca desejam novamente?

Ao invés de caminhar para um estado de medo, violência e corrupção institucionais, quem sabe vale a pena lembrar em quem votamos nas últimas eleições; quem sabe aperfeiçoamos a democracia e a justiça ainda medrosas e capengas; quem sabe deixamos de lado nossa predestinação messiânica e assumimos as rédeas de nosso destino de tal maneira que tiranos e corruptos não se multipliquem e não sejam exemplos para ninguém. Está mais do que na hora de sair da cama dos pais.


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