Ciência

Dermatologista pelotense descreve nova doença

Hiram Larangeira descobriu a ictiose acral; a segunda enfermidade descrita em dez anos

10 de Março de 2018 - 07h35 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

No final do ano, médico teve a descoberta publicada em matéria do Jornal da Sociedade Brasileira de Dermatologia (Foto: Gabriel Huth - DP)

No final do ano, médico teve a descoberta publicada em matéria do Jornal da Sociedade Brasileira de Dermatologia (Foto: Gabriel Huth - DP)

Uma nova doença de pele acaba de ser descrita pela Ciência. A chamada ictiose acral - causada por alteração genética - está associada à produção em excesso de queratina e gera escamações aumentadas nas extremidades do corpo, como mãos e pés. Quem assina a descoberta é o dermatologista pelotense Hiram Larangeira de Almeida Júnior.

A descrição tomou como base o acompanhamento de um paciente de 12 anos, morador da Zona Sul. A doença passou a ser investigada em parceria com profissionais das universidades de Freiburg e Heidelberg, na Alemanha. A expectativa, inclusive, é de que um novo caso, ainda em estudo na Europa, também se confirme como a ictiose acral.

"Os genes conhecidos de ictiose foram examinados e estavam todos normais, confirmando tratar-se de enfermidade não descrita", ressalta o pesquisador. E acrescenta: clinicamente, o quadro também era novo; o que assegurava características até então não identificadas.

Reconhecimento científico
Os resultados já estampam as páginas de duas publicações científicas: o Jornal da Sociedade Brasileira de Dermatologia, de novembro de 2017, e a versão digital da Revista Europeia de Dermatologia. E o mais importante: com a descoberta confirmada é possível evoluir também nos tratamentos, como ocorreu em doença descrita em 2007 - lembra o médico.

A expectativa, entretanto, é de que o adolescente ainda não comece o uso oral de derivados da vitamina A, já que a doença não representa riscos ou sintomas desconfortáveis ao estudante. As escamações não provocam dores ou comichões. O impacto se restringe à aparência do paciente - explica o dermatologista. E é, justamente por isso, que o tratamento do jovem deve aguardar o período de puberdade e de crescimento. A expectativa é de que só se inicie por volta dos 15 anos de idade.

Há uma década, a primeira descoberta
Em 2007, Hiram Larangeira já havia descrito outra ictiose, a cribriforme. Ao ser procurado por uma paciente em Pelotas, dava a largada à nova pesquisa. O dermatologista foi a fundo, consultou estudiosos do Brasil e de outros países e verificou: os distúrbios - também de fundo genético - no processo de produção da queratina, que tornavam a pele mais espessa, associados à existência de pequenos furos, acabavam por caracterizar nova doença.

O estudo foi desenvolvido em parceria com o pesquisador da Embrapa, Luiz Antônio Castro, e com os professores de Dermatologia em universidades alemãs, Rudolf Happle e Ulrike Blume-Peytavi. Em julho de 2015, a descoberta ganhou destaque no Atlas das Genodermatoses; obra científica de renome internacional.

Saiba mais
- Nas duas situações, a microscopia eletrônica de transmissão, utilizada para ajudar na descrição das doenças, ocorreu na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e na Universidade Federal do Rio Grande (Furg).
- Até hoje, ainda não se conhece as razões das mutações genéticas. Como em ambos os casos, familiares não possuem sinais das ictioses, torna-se mais difícil o rastreamento dos genes.
- O tratamento, a base de derivados da vitamina A, ajuda a evitar a produção em excesso de queratina; proteína presente na camada mais superficial da pele, em unhas e cabelos. Ao ser utilizado no caso da ictiose cribriforme, em 2007, o tratamento melhorou o movimento das mãos da paciente, que apresentava a pele endurecida pelo excesso de queratina.

O perfil do pesquisador
Hiram Larangeira de Almeida Júnior é professor-associado de Dermatologia na UFPel e docente do programa de Pós-graduação em Saúde e Comportamento da Universidade Católica de Pelotas (UCPel). No pós-doutorado, na Universidade de Colônia, entre 2000 e 2001, trabalhou com diagnóstico molecular em genodermatoses e solidificou o interesse por doenças genéticas.

 


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